21/06/2011

Acompanhantes da morte

Acompanhar a morte de perto, mesmo que por um breve instante, constrói uma experiência quase inenarrável.  Acercando-se súbita, sorrateira; ou sendo a dama previsível, que se encomprida em dias que se arrastam, sempre é única e eterna. Porque nos desperta sensações, vivências, sentimentos intensos, totais; também contraditórios, duvidosos, é que nutrimos por ela distância e proximidade, respeito e admiração. Somos “[...] uma sociedade dividida entre a esperança de viver sempre e o temor de não morrer nunca” (Saramago, J. Intermitências da Morte, p.71).


Todo o amor, o carinho e a atenção a nossos entes queridos parecem insuficientes no derradeiro momento.  Porque não sabemos o que lhes advirá (se realmente há algo pelo que esperar!); pela dor da perda presente; pelo desejo de que o tempo retroceda e voltem a nosso convívio. Por querermo-lhes tanto, mas tanto, caixão ao lado, rosto rubro compungido, seguramo-lhe as mãos, afagamos seus dedos, roupa, rosto, cabelos, na derradeira despedida, no intuito de que a esposa, o pai, o irmão ou o amigo falecido perceba que - ainda – ali estamos e que deles não desistiremos. Nunca.

Até os últimos minutos em que se tem ao lado, mesmo que plastificada, a pessoa tão querida, todas as mágoas são esquecidas, todos os erros perdoados. Um sentimento de culpa pesaroso invade amargamente aquele que lhe é mais próximo. Por que não lhe satisfiz aquele desejo? Por que não viajamos? Por que não aproveitamos mais a vida? Por que não lhe dei mais atenção? Por que não telefonei? Por que não tivemos filhos? Por que você tinha que ir? E me deixar?

Na esperança de que um último suspiro sobrevenha e de que você irrompa de uma possível vida suspensa, esperamos. Em vão. Nunca mais haverá tudo... nem opinião para mudar a seu respeito.

Já é ocaso.

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