12/10/2009

A sociedade da (des)confiança

Sociedade Pós-moderna, Pós-indutrial, Informacional ou Terceira Via. Denominações que tentam definir e explicar o que somos, nossos comportamentos perante situações cotidianas e maneiras como reagimos ao outro com seus valores, cultura, anseios, desejos, diferenças e particularidades infinitas. O sistema do capitalismo selvagem que nos envolve em suas teias de consumo desenfreado (não temos mais o direito, mas o dever de consumir!), que manipula e distorce a informação (o que é real e o que é montagem, recortes, omissões), também contribui para que nos afastemos uns dos outros, aderindo ao contato virtual e estabelecendo, cada vez mais, relações interpessoais de (des)confiança.

Podemos entender a confiança como uma relação entre indivíduos que esperam, uns dos outros, uma política de cooperação mútua, em que nenhuma das partes explore os pontos fracos da outra, obtendo trocas e benefícios ‘justos’. Então suponha que eu e você firmamos uma parceria pessoal ou de negócios. Ambos temos determinados interesses em algo que o outro pode nos proporcionar e esperamos, confiantes, que ele cumpra com sua palavra, com os compromisso assumidos, adotando uma postura de cortesia, honestidade e respeito. Se ao final da negociação nós dois cumprimos com esses requisitos é porque somos confiáveis, o que permite a construção de uma reputação positiva: “você pode contar com Fulano porque ele não vai te deixar na mão”.

Estamos mergulhados numa sociedade da confiança (ou da desconfiança). Exemplificando: vou ao açougue comprar a carne da semana. Peço ao atendente 1,5 quilo de patinho, 500 gramas de filé mignon e 750 gramas de carne moída de primeira. Aqui, eu confio que a balança do estabelecimento está funcionando corretamente, pesando – e cobrando – os valores devidos; o vendedor está me fornecendo o tipo de carne pedida e não outra, mais barata, com nervos, etc., e a qualidade da carne (condições de higiene, acondicionamento, embalagem) é adequada para meu consumo seguro. Ou seja, eu estou confiando naquele açougue, bem como nas pessoas que lá trabalham. Elas com certeza estão agindo de forma ‘justa’, pois esperam que eu volte, compre mais e indique o local para conhecidos.

Quando compro um produto pela Internet, não posso visualizá-lo da forma como me será entregue, como no caso do açougue. Apenas imagino – e confio – que aquela empresa (cuja sede não sei onde fica e cujos funcionários não enxergo) receberá o meu dinheiro e me enviará o produto em perfeitas condições e no prazo estabelecido pelo site. Assim também ocorre se contratamos um indivíduo ou uma empresa para nos prestar um serviço. Por exemplo, um personal trainer que se compromete em nos fazer emagrecer em x tempo e ainda com saúde. Por sua natureza intangível, imaterial, um serviço não pode ser tocado nem visto, mas seu retorno é percebido ao longo do tempo, nas interações entre consumidor e vendedor. Mais uma vez confiamos na palavra do profissional quando ele diz que não nos fará perder tempo nem dinheiro e pronuncia a palavra mágica: resultado!

Alguns indivíduos, entretanto, confundem a atitude de confiança – desconfiança citada quando recorrem ao famoso QI ou ‘quem indica’. Na verdade, aqueles que adotam essa postura parecem possuir uma espécie de ansiedade, receio, insegurança, medo disfarçado, enrustido, de que “um profissional de ótimo currículo pode prejudicar, roubar a empresa! Nós não o conhecemos!”. Ao passo que alguém indicado por uma pessoa conhecida, de confiança, pode, em princípio, não ter todas as habilidades requisitadas, porém “ele pode ser treinado, vai aprender com o tempo” e principalmente “é amigo do diretor”. Nesses casos, a confiança não é uma transação de benefícios mútuos, e sim uma desculpa frente ao medo de arriscar, frente à possibilidade do fracasso, resultando, muitas vezes, em perda significativa de criatividade e competitividade.
(LUCCHI, M.)
Obs.: publicado no Jornal Valeparaibano, seção Opinião (p.2) em 25/10/2009. Disponível em: http://www.valeparaibano.com.br/jornal/valeparaibano/vp00140/vp00140Integra.jsp?origem=TemplateInicial&Template=15&Chamada=1&codEdicao=25102009

4 comentários:

  1. Oi professora,
    primeiro, bem vinda ao mundo do blógue,rs.
    e feliz dia dos professores para você.

    Sobre o texto, essa relação, não sei se chamaria de confiança, pois, na verdade, estamos a mercê do açougue/do produto da internet, não temos propriamente dita a escolha de confiar, pois, precisamos da carne, precisamos de determinado produto. Podemos escolher não compra-lo, mas até que ponto isto não nos fará falta, então jogamos o dado no escuro e torcemos para que o outro não seja imoral, que não queira gratuitamente nos prejudicar.

    =)

    Ah, mudei de blog, dê uma passadinha quando tiver um tempo!!!

    Beijoca.

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  2. Parabéns pela conclusão do curso de mestrado. Estou a caminho...
    Achei interessante a ideia do blog. Belo começo de um longo caminho de sucessos e realizações. Felicidades!!!

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  3. Melissa,
    Quero parabenizá-la pelos dois textos.
    Os dois textos são bons, os temas são atuais, e com certeza causariam um bom debate para serem discutidos em uma sala de aula. Acho também, que são temas os quais dariam uma boa tese de mestrado!!!
    Talvez por gostar de um gênero (crônica) mais puxado para o humor, senti falta desse estilo “a La Cintrão”. O fato ocorrido no consultório foi hilário. A maneira como foi narrado é que me pareceu fugir daquilo que mais me identifico: O humor.
    Lembro de uma pergunta que foi feita ao cintrão, (é assim mesmo como eu o chamo) a qual dizia o seguinte: Como é que sabemos o que o povo está lendo? E ele respondeu: escrevendo. Por isso melissa, o fato de não ter me identificado com os textos que nos enviou, não quer dizer que não venha a gostar de outros vários que escreverás.

    Abraço!!
    Neto

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  4. Melisa, você sempre foi e sempre será uma fonte de inpiração para qualquer estudante iniciante. Você é genial.
    Com ceerteza você chegará muito mais longe. Seus textos são maravilhosos. Você é tudo de bom. Todos deveriam ser temas de estudo em salas de aula . Tenho certeza absoluta que ainda verei muitas de suas cônicas publicadas em grandes revistas. Breve chegará o seu doutorado porque só falta o diploma, doutora você É.

    BEIJOS
    Eloi

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