16/10/2009

Corpo, objetos e seus significados implícitos



Diante da vida agitada e repleta de compromissos que encaramos hoje, percebo que, por vezes, damos pouca - ou nenhuma - atenção aos sinais corporais daqueles com quem convivemos ou nos relacionamos. A fala e a escrita constituem práticas majoritárias em nossos afazeres cotidianos, tanto no ambiente de trabalho quanto no lazer. Usamos o discurso oral em reuniões, palestras, seminários, bate-papo com amigos, o cafezinho da tarde. O escrito aparece em cartas, relatórios, e-mails, textos de mensagens instantâneas e milhares de outras formas de comunicação.

A ‘Comunicação Não-Verbal’ ou ‘Linguagem Corporal’, entretanto, passa-nos despercebida, pois se manifesta sutilmente nas entrelinhas, nos implícitos, nos significados escondidos de gestos faciais e corporais, nos acessórios que usamos, na escolha dos objetos com os quais adornamos nosso escritório e casa, na posição em que os dispomos, na maneira como nos dirigimos ao outro, etc. Estudada pela Cinética, a Linguagem Corporal é uma área de análise recente, datando as primeiras pesquisas das décadas de 1970 e 1980 nos Estados Unidos.

Mas por que, pergunta-se o leitor, devo dar importância à temática? Investigações do antropólogo Ray L. Birdwhistell constatam que 65% do significado de nossas conversas estão ligados a canais de comunicação não-verbal, restando 35% de importância para as palavras pronunciadas. Isso mostra que, ao usarmos da fala, nosso interlocutor tende a memorizar mais as mensagens corporais que, instintivamente, transmitimos. O professor Albert Mehrabian confirma a idéia. Seu levantamento aponta que 7% dos significados estão na linguagem falada; 38% são paralinguísticos (entonação e inflexões da voz) e 55% são encontrados em expressões faciais e gestos corporais.

Faça o teste você mesmo, amigo leitor! Experimente, enquanto alguém lhe dirige a palavra, balançar afirmativamente a cabeça em intervalos curtos de tempo. Esse pequeno gesto corporal estimula, segundo pesquisas, que a pessoa com quem você interage fale até quatro vezes mais do que faria sem o gesto. Outra dica é espelhar, ou seja, imitar posturas corporais de indivíduos dos quais você deseja se aproximar. Apertar a mão com a mesma firmeza, olhar firme e centrado, sorrir mostrando os dentes e inclinar o corpo na direção de quem fala são indicativos de sinceridade e podem ajudar a abrir portas.

Esses sinais invisíveis, considerados por autores da área como os mais honestos (visto que dificilmente os controlamos de forma consciente), também podem colocar barreiras às relações interpessoais. Braços e/ou pernas cruzadas, objetos colocados à frente do corpo como bolsas e pastas, sobrancelhas franzidas e mãos apoiadas no queixo indicam resistência, desinteresse ou mesmo apatia sobre o que está sendo dito ou exposto.

A posição e o uso que se faz do mobiliário e seus adereços também contribui para criar empatia ou antipatia. Cito um exemplo corriqueiro, mas não desimportante, que ocorreu comigo dia desses. Indo a um otorrinolaringologista, reparei que o bebedouro com água mineral teoricamente destinado aos pacientes que aguardam ser atendidos se localizava atrás da mesa da secretária. Nele estava escrito: “se quiser água, solicite à secretária”. Pensei: aqui até a água é racionada? Ao entrar no consultório, reparei que uma distância de 5 metros separava a cadeira do paciente da do médico. Ao tentar chegar a cadeira mais próxima, qual foi minha surpresa ao verificar que ela estava literalmente pregada ao chão. Das duas uma: ou algum paciente tentou raptar a cadeira ou a intenção do ‘médico’ era manter distância ‘razoável’ dos pacientes. Não foi preciso que ele dissesse nada; a frieza nos gestos e a aspereza do ambiente já indicavam a personalidade do ‘profissional’.

7 comentários:

  1. Tem um livro que uma professora do senac recomendou à sala uma vez: "O corpo fala - Weil, Pierre; Tompakow, Roland ". Não li ainda, mas várias pessoas me disseram que é muito bom, acho que vale a pena, principalmente para nos conhecermos, àsvezes queremos passar uma mensagem e acabamos transmitindo outra pela mensagem corporal e nem sabemos disso,rs.

    E pedir água para a secretaria é sacanagem,rs.


    beijoca prof!
    =)

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  2. Olá, Dai! Sim, esse livro é um clássico da área. Também há o de Pease & Pease, 'Desvendando os segredos da linguagem corporal', bem interessante. O bacana é que o assunto está a nossa volta a todo momento, trazendo milhares de significados dos quais muitas vezes não nos damos conta. Beijo e obrigada pelo comment.

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  3. Acho interessante os sinais do corpo quando não estamos confortáveis em um lugar, ou quando, pelo contrário, estamos à vontade e relaxados. A sensação de prisão, desconforto e agonia versus o prazer de se deixar estar em companhia dos que gostamos, ou num ambiente em que consigamos simplesmente contemplar o momento.

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  4. Acredito que nunca passamos mensagens erradas, geralmente quando queremos passar falsas mensagens simplesmente mentimos, e a verdade fica nas entrelinhas, posturas, ações e atos falhos. Não devemos encarar a leitura postural ou corporal como um treino a simulação, mesmo porque, duvido que consigamos. Essa leitura é útil para analise do outro, pois, vez por outra assim como a outra pessoa não sabe que esta dizendo além das palavras, nos também temos a tendência de ver aquilo que queremos ver, como se a verdade fosse (e acredito que seja) simplesmente aquilo que escolhemos acreditar.

    Muito bom o texto, Melissa Lucchi.

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  5. Ei Melissa, tudo bem? Amiga você arrasou!!! Adorei o site. Infelizmente nao tive muito tempo de ver tudo, mas li o ulitmo artigo escrito. Parabéns! É muito bom te ver assim. Bom, outro dia saiu no jornal daqui algumas dicas de como se comportar numa entrevista de emprego. E dizia exatamente que bolsas no colo, pernas e braços cruzados, podem ser um ponto negativo pro candidato. Interessante. Preciso me policiar.. rs
    Saudades de você. Sucesso. Beijos, Schirlla.

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  6. Gostei do texto. Enxuto. Claro. Direto ao ponto!
    Parabéns.

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  7. Arrasooouu!! Amei os textos. Gostei mais desse aqui! Super interessante! Eu li o livro ''O Corpo fala'' já há algum tempo... Enfim, parabéns! Os artigos são muito gostosos de ler! Beijos

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