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08/02/2010

O direito de morrer

Sob condições de trabalho estressantes, 25 funcionários da France Telecom tiraram a vida entre 2008 e 2009. Acusado de corrupção, o ex-presidente da Coréia do Sul Roh Moo-Hyuh se atirou de um despenhadeiro (maio de 2009). Enxergava-se como um fardo para a família. Amigos contam que Michael Jackson carregava cartas de suicídio. O rei do pop teve infância pobre, pai conservador e desejava morrer jovem. Também visualizando a velhice como triste, problemática e por isso querendo evitá-la, a atriz brasileira Leila Lopes escolheu, serena, o direito de morrer.

No artigo 5º, a Constituição Brasileira trata do direito à vida. Direito e não dever! O dicionário Caldas Aulete define o substantivo masculino ‘direito’ como “autoridade ou prerrogativa de cobrar algo para si” enquanto dever significa “obrigação de fazer ou deixar de fazer alguma coisa imposta por lei”. Entende-se, assim, que qualquer brasileiro, estando ou não no perfeito uso de suas atribuições mentais e sejam quais forem as razões que motivem ou justifiquem seu ato, pode, caso deseje, dar fim à própria vida. Se a existência é um direito, e não um dever, não cabe aos indivíduos prestar contas ao Estado sobre suas particularidades.  

O Código Penal Brasileiro (artigo 122) não pune a tentativa de suicídio, visto não afetar outros nem prejudicar a paz social. No caso, porém, de pessoa que induz ou ajuda outra a cometer o ato, a pena é reclusão de dois a 12 anos. O Código de Conduta dos Jornalistas da Noruega afirma que suicídios e tentativas não devem ser mencionados na imprensa (artigo 4), mas não aponta causas nem consequências. Ainda mais vago é o Código de Ética dos Jornalistas Brasileiros. O documento não menciona o suicídio diretamente. Limita-se a dizer que não se pode “usar o jornalismo para incitar a violência, a intolerância, o arbítrio e o crime” (artigo 7) nem “divulgar informações de caráter mórbido, sensacionalista ou contrário aos valores humanos” (artigo 11).

Alguns profissionais da mídia argumentam que divulgar notícias de tentativas ou cometimento de suicídio é incitar outros indivíduos, principalmente os que possuam alguma tendência, a imitar o ato. Há muito essa tese está ultrapassada, como comprovou, na obra O Suicídio (1897), o fundador da Sociologia Émile Durkheim. O sociólogo defendia que o estilo de vida adotado nas sociedades é fator determinante para os tipos de suicídios praticados por seus membros. A ideia também vem sendo superada por veículos de renome nacional como a revista Veja, o jornal Folha de São Paulo e a Rede Globo, com notícias objetivas e imparciais sobre o assunto.

Considerado crime pelo Estado e atentado à moral para diversas religiões, o suicídio provocou reações diversas na população durante vários séculos, entre elas pena, aversão e medo, conforme conta Durkheim. Na França de Luís XIV (1670) e na Inglaterra do rei Edgar (século X), o corpo do suicida era arrastado pelas ruas, seus bens confiscados e, sendo nobre, passava a plebeu. Nas sociedades greco-latinas, o suicídio legítimo era o autorizado pelo Estado, pois entendiam que, matando-se, o indivíduo fugia às obrigações perante a sociedade.

Mapeando os suicídios no continente europeu, o estudioso estabeleceu três tipos principais. No egoísta, o indivíduo, geralmente um intelectual, isola-se de outros por se considerar superior a tudo o que o cerca. Já o altruísta se vê tão integrado à sociedade que é capaz de dar cabo da existência por crer servir a uma causa maior. Os milhares de homens-bomba se enquadram facilmente nessa tipologia. O anômico, ao se dar conta de que vários sãos os cultos, costumes e modos de vida praticados, vê um mundo fragmentado que desmorona em torno de si, não se identificando com nenhuma abordagem. A atualidade é, realmente, variada em pontos de vista, tendências, gostos, costumes, atitudes!

Se é verdade que “[...] o direito de viver parece implicar, logicamente, o direito de morrer” (Durkheim, p.366), não se trata de julgar ou condenar. Além disso: compreender e respeitar o livre arbítrio de cada um, seja por meio de matérias jornalísticas isentas, pelo estudo do tema ou através da ruptura com pré-conceitos estabelecidos em nossa sociedade.

25/01/2010

Do hábito à tradição: os eternos satisfeitos

Ir à pizzaria é tão revoltante quanto fazer uma refeição num restaurante badalado ou pedir comida em casa. Motivos: a qualidade dos alimentos e o atendimento. Comecemos com a pizza, um dos pratos de melhor aceitação no mundo. Lembro-me na adolescência (e isso não faz tanto tempo!) de ir comer pizza com meus pais e receber um cardápio variado de ingredientes e combinações, seguido da entrega de pizzas rechonchudas no recheio e nas bordas. Hoje se tem um cardápio “elegante”, com nomes estrangeiros e pouquíssima substância. Comemos pizza de queijo com mais alguma coisa (+ champignon, palmito, milho ou somente mais queijo!). Num rodízio, paga-se caro para comer queijo de uma maneira ‘nunca vista’, o garçom enxerga a sua mesa a cada 30 minutos e o prato chega requentado e oleoso!


Um restaurante famoso aqui em São José dos Campos, São Paulo, faz pesados investimentos em mídia, mas ganha nota zero no quesito higiene. Ao conhecê-lo junto a alguns amigos encontramos: um rato saindo pela porta lateral; duas baratas no parquinho das crianças e um fio de cabelo no osso da costela bovina. Sem mencionar que os atendentes pareciam ter ido plantar as árvores das frutas pedidas para os sucos naturais e o gelo dos refrigerantes já havia derretido há tempo. Será que os proprietários de estabelecimentos comerciais do ramo alimentício avaliam que prestamos um favor a eles ao irmos à sua loja? Aonde foi parar aquele velho provérbio que diz “o cliente tem sempre razão”?


O atendimento pode ser ruim porque, justo naquele dia, o garçom se desentendeu com a mulher; o salário que recebe está bem abaixo do pago à categoria; o chefe o tratou com desrespeito e por aí vai. Seriam motivos para ele descontar em quem, ao final das contas, paga o seu ordenado? Imagine se, a cada buzinada que recebêssemos no trânsito, retrucássemos com socos e pontapés? A questão principal, no entanto, vai além: muitíssimo pior do que o brasileiro ter ao seu dispor restaurantes, lanchonetes, bares, padarias, pizzarias, etc. oferecendo serviço de péssima qualidade, somos nós, os clientes e avaliadores finais, aceitarmos esse serviço.


Alguns, ao perceberem que o nível geral do que é oferecido caiu em qualidade, acomodam-se e passam a acreditar que a vida é assim mesmo: os preços sobem, o salário estagna, os produtos estragam rapidamente, os serviços são mal executados.... e o experimentar de uma vez acaba virando um hábito que, aos poucos, torna-se tradição. Assim o estabelecimento continua funcionando, produzindo e atendendo mal, mas aquecendo a economia. Esses são os eternos satisfeitos (ou acomodados), em quem os outros sempre podem pisar um pouquinho mais. 

20/01/2010

Humildade: desafio de amor incondicional

Funcionar 100% baseado na troca. Isso é possível? Adolescentes idealizam o namorado ‘perfeito’ com as qualidades descritas minuciosamente. Adultos reivindicam relacionamentos equitativos, igualitários, compreensivos, com confiança e respeito. Na vida pessoal e no trabalho, anseia-se por um ambiente equilibrado, em que pessoas entendam que outras têm história e experiência de vida diferentes. O que esses indivíduos que esperam sempre ganhar (crendo-se disso merecedores) têm a oferecer?


Incondicionalidade. Aquilo que não impõe condições e/ou restrições. No mundo real, um dos substantivos mais complicados de se transformar em verbo. Qual é a ação exercida hoje, no que se refere à amizade, ao relacionamento amoroso, ao cotidiano de trabalho e mesmo de lazer, em que algum interesse (ou troca) não esteja implícito? O amor incondicional da época literária do Romantismo, de paixões platônicas e herois destemidos, pode ser visto hoje numa das relações que considero das mais sinceras: o sentimento que une homem e animal.


Trata-se aqui dos animais domesticáveis, principalmente o cão. Dele alguns gostam independente de destroçar o chinelo, puxar roupas e cabelos, latir, uivar ou roer os rodapés da casa para chamar atenção. Isso é amor incondicional. Essas pessoas são especialíssimas porque, pacientes, praticam a qualidade, cada vez mais rara, da humildade. Têm despojamento, simplicidade, modéstia. Vêem que todos têm limitações e, por isso, aprendem permanentemente, seja interagindo com businessmen ou com um vira-lata abandonado.


É gratificante conhecer pessoas que se dedicam a encontrar um lar para animais de rua, voluntariando-se em cuidar dos mesmos incondicionalmente. De suas pulgas, carrapatos, piolhos, sarnas, limpando urina, fezes, dando banho, fornecendo amor, carinho, atenção e uma oportunidade de vida melhor. Isso é realmente praticar o conceito da expressão ‘ser humano’, cujo sentido original remonta à bondoso, humanitário, generoso para com o próximo. Sendo esse próximo sim, um cachorro!


Ao comentar com duas conhecidas sobre a vontade de ter um cãozinho, obtive reações diversas. A primeira valorizou o ato como símbolo de status, isto é, se o cachorro fosse de raça “nobre e chique”. A segunda fez uma feição de nojo imensa ao se imaginar recolhendo as fezes do animal, após passear com o mesmo. Ambas esquecem os benefícios físicos e mentais de ter um animalzinho: relaxamento, companhia, prática de caminhadas, além das vantagens para pessoas com deficiência visual, auditiva e motora. Quem sabe assistir à história do leão Christian as convença... (http://www.youtube.com/watch?v=J_Lyts9GBLM)

21/12/2009

O reino encantado da futilidade ou A quem dizer ‘cale a boca’!

Era uma vez um presidente chamado Lula, que vez ou outra demonstrava seus fabulosos conhecimentos de Geografia, Economia e Língua Portuguesa para os súditos. Alguns, menos abatidos, gritavam: “ô, presidente, pense primeiro e fale depois!”. Ou: “que tal contratar um assessor de comunicação e imagem para preparar vossa excelência para pronunciamentos, discursos e entrevistas?”. Se pudesse, eu perguntaria ao ‘companheiro’ por que não adotar essa atitude, que contribuiria em muito para amenizar as críticas cortantes e reafirmar a importância da Educação para o futuro do povo brasileiro.


No reino também havia fait-divers diários, com suas celebridades platinadíssimas, gostosas e semi-nuas; fofocas sobre quem casou, descasou, matou, morreu, procriou ou azucrinou alguém, o que usou, onde, quando e quanto sucesso fez. As notícias de entretenimento crescem tal erva daninha. Sabe aquela tiririca que seu pai sempre arrancava do jardim pela raiz para não matar as outras plantas? Quanto mais quer se livrar dela, mais a danada prolifera e empesteia tudo. As inutilidades arborecem e os frutos estão aí: indivíduos-zumbis criando realidades paralelas e eternamente infelizes por não atingirem a ‘perfeição’ dos ‘astros’ da telinha.


Esquecidos da globalização, esse ser supremo e invisível que torna bens tão homogêneos, os indivíduos supérfluos enxergam o luxo numa sandália de dedo confeccionada ao preço de 1 yuan por um operário chinês explorado à míngua ou produzida logo ali, no Pólo Industrial de Colatina, Espírito Santo. E nesse ritmo são consumidas calças, bolsas, cintos, acessórios... movimentando o mercado, fortalecendo a economia e, claro, tornando as pessoas mais desejosas de se desfazer dos utensílios antigos, démodé. E aí entra o generoso papel da doação aos desprovidos. Quanta caridade! Ahh! Calem a boca!



Que calem a boca, urgentemente: os consumistas desenfreados e irrefletidos; os políticos corruptos que não prestam contas à população ou não se suicidam; os que criticam sem ler, ver ou ouvir a obra; os que são desrespeitosos com empregadas domésticas, garis, porteiros, professores, pais, mães, amigos e desconhecidos em geral e os que querem mandar calar-se apenas para contradizer, e não porque apresentam argumentos lógicos para tanto.  

14/12/2009

Aculturação da cidadania e fortalecimento da hipnose midiática

Aculturação: processo pelo qual indivíduos, grupos sociais ou povos absorvem elementos de outra cultura, podendo ter, em relação a eles, reações que vão da aceitação e adaptação à resistência ideológica, fuga ou destruição de preceitos e portadores. Cidadania: conjunto de direitos civis, políticos e sociais de indivíduos membros de um Estado que devem obediência às leis e ao Governo, com direito à proteção. Hipnose: espécie de torpor, sonolência ou passividade perante as sugestões de um hipnotizador. Mídia: meios de comunicação como jornal, televisão, cinema, rádio, propaganda e Internet (Dicionário Aulete Digital). Unir esses termos num todo lógico é escancarar a influência e manipulação da mídia de massa, principalmente a televisão, sobre os milhões de pessoas que compõem a sociedade ocidental.


Acostumamo-nos, lenta e progressivamente, a ouvir, ver, ler e clicar em mensagens que não nos indicam, e sim induzem os assuntos sobre os quais é “imprescindível” que estejamos informados - como se isso fosse a coisa mais natural do mundo! ‘Globo e você: tudo a ver’ (Rede Globo de Comunicação); ‘As notícias mais importantes do dia’ (Jornal Nacional); ‘A rádio que toca notícia’ (CBN); ‘Em 20 minutos tudo pode mudar’ (Rádio Bandeirantes) são alguns slogans repetidos incansavelmente. Eles mostram que a Escola da Comunicação denominada Indústria Cultural continua viva, atuante e alienadora.


A Corrente Teórica propunha, já no início de 1900, que a influência dos meios de comunicação de massa provoca a paulatina substituição do cidadão pelo consumidor. Aquele, com a consciência adormecida, não mais reivindica melhorias e transformações em suas condições de existência. Hipnotizado e conformado, é um animal dócil que se deixa seduzir pela aparência e necessidade permanente de consumo e entretenimento, auxiliando a perpetuar a produção em massa de mercadorias padronizadas e a audiência de programas sensacionalistas, de fofocas e amenidades.


Com a multiplicação de credos e religiões, a diminuição das famílias numerosas, os deslocamentos geográficos constantes e os escassos amigos, entre outros fatores, o homem tem seus laços sociais enfraquecidos. Cada vez mais distantes uns dos outros, mesmo que próximos fisicamente, os indivíduos vão perdendo a capacidade de se organizar para construir uma cultura independente, que nasça espontaneamente das massas e que reflita uma inteligência coletiva, que agrege além de informação: conhecimento, valor, saber. O sociólogo Theodor Adorno (1903-1969) afirmava a perigosa subliminaridade das mensagens comunicativas vazias. “Quanto mais completo o mundo como aparência, tanto mais inescrutável a aparência como ideologia”. A aparente inocência midiática adentra os lares e hipnotiza muitos diariamente.

02/12/2009

Individualismo, atenção e gentileza: o que os homens esperam do outro

Ao abordar o perfil dos adolescentes e jovens brasileiros – o que querem e como são as relações com família, amigos e conhecidos - os veículos de comunicação não cansam de repetir sobre o distanciamento presencial e a simultânea empatia com o ‘mundo encantado’ da World Wide Web. Assim como eles, adultos também carregam sua bolha de ar portátil, fecham-se em sua concha imaginária, lacram-se em seus apertamentos (sem sequer conhecer ou cumprimentar o vizinho de porta!).


Esse isolamento voluntário de milhões de indivíduos contribui para a construção de realidades particulares, imaginárias, centradas num ‘eu’ gigantesco e ensimesmado. Reinventando a Caverna de Platão, percebe-se que as pessoas vivem fechadas em seu mundinho particular, enxergando somente o que querem ver. Ocupadas demais com os próprios problemas e em alardear aos quatro cantos seu “imenso” conhecimento, distorcem a realidade (vista como sombras). O distanciamento interpessoal e o individualismo são consequências do sistema capitalista, que transfigurou o ‘ser humano’ em interesse; networking; vantagem; competição; dinheiro; consumo; bens; status; eminência.


Ao mesmo tempo, o bicho-homem precisa do coletivo, pois se sente frágil, solitário, não-compreendido, mal-amado; perdido na imensidão de egos desencontrados. Espera daqueles que lhe são próximos atenção, companhia, palavras de alento, sinceridade. Nesse cenário de indiferença, do ‘salve-se quem puder’, gentilezas sutis ainda fazem a diferença. Recordo minha ida a Salvador, sentada para o café da manhã no restaurante do hotel, onde uma baiana tradicional, morena sorridente de meia-idade, entregava talheres e guardanapos limpos. Um sorriso meu como retorno, acompanhado de ‘bom dia’, ‘por favor’, ‘que manhã linda!’ ou ‘como você está hoje?’ retornam comentários de “como ela é educada!”. Atitudes e frases simples, sinceras e positivas modificaram o dia de trabalho – e a alegria - de uma desconhecida.


Infelizmente, o homem nem sempre age dessa forma em relação a seu semelhante. Para substituí-lo, ele adotou o animal de estimação. Cães, gatos e outros ‘entes queridos’ estão lá para nos ouvir, aceitam-nos como somos, não reclamam (mas ficam tristes) se gritamos com eles e sempre estão prontos para um passeio onde quer que seja. Eles são como personagens que ratificam a imagem que fazemos de nós mesmos. Se nos aceitam, é porque somos pessoas agradáveis, corteses, de bem com a vida, “zero defeitos”.



Essa é a “verdade” que o homem concebeu para si mesmo e na qual vem se afundando: individualismo, egocentrismo, isolamento, indiferença, solidão. Até chegarmos todos à loucura.

05/11/2009

Onde estão nossos mentores?

Na Grécia Antiga, entre 300 e 400 a.C, já existia o prelúdio da ideia de mentoria. Após ser pupilo de Sócrates, Platão atuou como mentor de Aristóteles que, por sua vez, foi professor do rei Alexandre o Grande, da Macedônia. Jesus Cristo tinha 12 discípulos, aos quais transmitia seus ensinamentos (de amor a Deus e ao ser humano). Homens que agiam como multiplicadores do Evangelho, levando às pessoas palavras de vida, esperança e fé. Nas Corporações de Ofício (século XII), mestres e aprendizes exerciam as mesmas tarefas. Nos dias de hoje, as figuras que melhor ilustram esse ideal são as do professor e do escritor.


Apesar de o Ministério da Educação (MEC) afirmar, vez por outra, que o salário do professor aumentou alguns porcentos, os valores pagos à maioria não quantificam dignamente um profissional que lida com uma atividade qualitativa, imaterial: o conhecimento. Mesmo atuando num modelo de educação prescrito, que ainda privilegia a memorização e o acúmulo de informações, muitos docentes (aqui incluídos os de níveis fundamental, médio e superior) acreditam no ensino-aprendizagem, esforçando-se para educar os alunos - mesmo com precárias condições de infra-estrutura - sobre a importância da reflexão como porta para oportunidades futuras.


Trabalhe o escritor com o ramo literário ou jornalístico, também ele é mentor extremamente relevante para o futuro de nosso país. Vem dele a iniciativa, a audácia e a liberdade de empreender o texto; encadeamento de palavras e frases escritas que traz, no conteúdo e na forma, o potencial das interpretações, da formação de opiniões críticas, da mobilização e da reconstrução de ideias. O escritor é o amigo distante que deseja externar e compartilhar conosco o que e como pensa a respeito de algo, tornando-nos eternos aprendizes, de quem se espera, dentre outras coisas, amadurecimento nas relações pessoais e profissionais.


Nas sociedades ocidentais, em que a posse de bens (o ter) é mais valorizada do que o pensar e o saber, como ocorre nas orientais, o mestre, mentor, tutor, orientador, facilitador ou ‘abridor’ de portas está cada vez mais difícil de encontrar. Afinal, quem, em sã “consciência”, sobrevivendo num país individualista, consumista e de falsa democracia tem interesse em ‘gastar’ o precioso tempo em orientações se essas não lhe trazem algum benefício? Minha sincera admiração a todos que se fazem ouvir, pela fala ou escrita, preocupando-se e dedicando-se a mobilizar razão e sentimento de outros. Uma admiração eterna à minha orientadora de dissertação, professora doutora Mônica de Fátima Bianco; ao escritor Maurício Cintrão e ao jornalista Alexandre Alves (os últimos, exímios palestrantes): seres humanos que têm a decência de praticar a palavra bondade.

29/10/2009

Aprendizagem por meio da punição

Impressiona-me e me causa imensa revolta o fato de que a aprendizagem, na maioria das vezes, ocorre – e funciona! – por meio da punição. Adolescentes, jovens e adultos desejam, cada vez menos, o ‘aprender por aprender’. Esteja o aprender ligado à elevação do background cultural e à consequente possibilidade de enxergar o mundo sobre vieses diversos ou mesmo visando atrair a garota bonita do bairro numa conversa inteligente, ‘antenada’ aos acontecimentos e fatos da atualidade.


Para se tornar interessante a algumas pessoas, o “aprender” deve estar ligado a alguma vantagem que será obtida em dada situação. Quanto mais isso ocorrer em detrimento de outro indivíduo, mais atrativa - para uns - parece a atitude. Algo semelhante ao famoso ‘jeitinho brasileiro’. Por exemplo: o aluno não tem a menor ideia do conteúdo da avaliação e não faz esforço algum para estudar. Ele pensa que, após a prova, pode dizer à professora que passou mal e ela lhe dará outra oportunidade. Se o docente assim age, o aluno assim fará na vez seguinte. Se a atitude é a punição com nota zero, o estudante repensará a posição.


Sinto-me péssima ao revelar isso, mas tenho pena de certos alunos. Mesmo que o professor se dedique em metodologias dinâmicas, atrativas, o estudante imaturo se esforça minimamente para obter a média nas disciplinas: não lê os textos requisitados, não estuda em casa nem faz os exercícios. Isentando-se de pensar e de refletir sobre os conteúdos, o senso crítico desse aluno é baixíssimo, tendo dificuldade para interpretar um filme antigo ou questionar pontos de vista contraditórios. Como não possui postura pró-ativa, resta ao professor aplicar a temida prova, que nada mais é do que o encaixotamento de alunos de individualidades diversas dentro de um mesmo pacote que é categórico e limitado ao afirmar que os alunos “compreenderam” o conteúdo ministrado. Nessa avaliação escrita, individual e sem consulta, o medo e a possibilidade da punição reaparecem e o “sucesso” se resume à nota obtida.


O sistema de leis brasileiro também está firmemente baseado na punição. Será que o motorista apressado que ‘corta’ outros veículos pela direita e dirige com farol alto à noite ultrapassa a velocidade permitida nos radares eletrônicos e o sinal vermelho? Supondo que ambos os mecanismos estejam em perfeito funcionamento, esse condutor sabe que, no primeiro caso, receberá uma multa generosa e no segundo pode ter o veículo amassado em decorrência de uma colisão com outro que trafegue na pista em 90 graus. Caso não sofresse com os prejuízos de suas ações, será que esse motorista respeitaria as leis de trânsito porque realmente acredita que são corretas?


A crise de empregabilidade e o trabalho numa organização burocrática, autoritária, também podem inibir a manifestação de opiniões divergentes, inovadoras se o medo de errar (e de ser punido) aparece. O funcionário criativo pode preferir se calar, perdendo a empresa grandes oportunidades de mudança. Nos dias atuais, parece que o líder autoritário de Max Weber ainda ganha do líder carismático e a Teoria X prevalece sobre a Y, demonstrando que há indivíduos que preferem a tranquilidade das vantagens e regalias sem esforço em detrimento do mérito conquistado por meio de trabalho árduo e competência. 

22/10/2009

A miniaturização do texto e a desinformação do leitor

Parece que rompemos o ciclo ‘dados + informações = acúmulo de conhecimento = aprendizagem’. Hoje, inebriados e plugados 24 horas na Internet, acreditamos estar conectados a um mundo riquíssimo de tecnologias e informações que nos fazem modernos, atualizados, ‘da hora’, top. Não se ignora aqui a existência de websites com textos literários riquíssimos; outros trazendo matérias jornalísticas interpretativas e bem apuradas, além de artigos, ensaios e crônicas de opinião embasada. É notório, no entanto, o mar alucinante de estímulos (cores, sons, luzes, vídeos, textos, imagens, links) a que estamos submetidos; a avalanche de informações desencontradas, incompletas ou equivocadas, além do entretenimento que conforma, aliena, ao invés de educar e conscientizar.


Pedaços de “informação(?)” estão presentes naquela que é uma das mais novas febres em nível internacional: a miniaturização do texto. Os ágeis 140 caracteres de miniblogs como o Twitter refletem a correria da atualidade pós-moderna. A todo tempo e em qualquer lugar, a sociedade sussurra aos ouvidos dos indivíduos de classe média e emergentes: possua nível superior; tenha um bom emprego; pratique atividades físicas; aprenda idiomas estrangeiros; conheça as ferramentas da Internet e construa sua rede de relacionamentos virtual, e finalmente, consuma, consuma, CON-SU-MA!    


‘Enxugar’ um texto (literário ou informativo) a ponto de resumi-lo a uma única frase não me parece instigar a imaginação e a criatividade dos leitores, como afirmam alguns. Se esse leitor não possui um arcabouço de leituras anteriores e, consequentemente, parco vocabulário e linhas de pensamento mal-articuladas, o enxugamento textual pode ter efeito contrário: o de limitar ainda mais a amplitude de possibilidades interpretativas desse público, que se contentará com um conteúdo rápido, superficial e desinformativo, que vai retirando dele, aos poucos, seu poder de compreensão, análise crítica, reflexão.


A idéia não é censurar a amplitude e a democratização de formas textuais diferenciadas, mas incentivar, principalmente no público jovem, o acesso a conteúdos que permitam a ele estabelecer conexões entre temas aparentemente desconexos; que façam-no concordar ou discordar total ou parcialmente, que permitam a ele vislumbrar e criar ideias a fim de capacitá-lo para atuar como partícipe, incentivador e protagonista de mudanças sociais.


Essa questão já preocupava o pensador e linguista Othon M. Garcia em 1967. Othon explica que “Aprender a escrever é, em grande parte, senão principalmente, aprender a pensar, aprender a encontrar idéias e a concatená-las, pois, assim como não é possível dar o que não se tem, não se pode transmitir o que a mente não criou ou não aprovisionou”. O sábio escritor José Saramago afirma sobre o Twitter: “Os tais 140 caracteres refletem a tendência para o monossílabo como forma de comunicação. De degrau em degrau, vamos descendo até o grunhido”. Louvados sejam, pensadores! Salvem-nos do afogamento na ignorância e da volta à barbárie!


Obs.: publicado no Jornal Valeparaibano, editoria 'Opinião', em 06/12/2009. Disponível em: 
http://www.valeparaibano.com.br/jornal/valeparaibano/vp00140/vp00140Integra.jsp?origem=TemplateInicial&Template=12&Chamada=1&codEdicao=06122009

16/10/2009

Corpo, objetos e seus significados implícitos

Diante da vida agitada e repleta de compromissos que encaramos hoje, percebo que, por vezes, damos pouca - ou nenhuma - atenção aos sinais corporais daqueles com quem convivemos ou nos relacionamos. A fala e a escrita constituem práticas majoritárias em nossos afazeres cotidianos, tanto no ambiente de trabalho quanto no lazer. Usamos o discurso oral em reuniões, palestras, seminários, bate-papo com amigos, o cafezinho da tarde. O escrito aparece em cartas, relatórios, e-mails, textos de mensagens instantâneas e milhares de outras formas de comunicação.

A ‘Comunicação Não-Verbal’ ou ‘Linguagem Corporal’, entretanto, passa-nos despercebida, pois se manifesta sutilmente nas entrelinhas, nos implícitos, nos significados escondidos de gestos faciais e corporais, nos acessórios que usamos, na escolha dos objetos com os quais adornamos nosso escritório e casa, na posição em que os dispomos, na maneira como nos dirigimos ao outro, etc. Estudada pela Cinética, a Linguagem Corporal é uma área de análise recente, datando as primeiras pesquisas das décadas de 1970 e 1980 nos Estados Unidos.

Mas por que, pergunta-se o leitor, devo dar importância à temática? Investigações do antropólogo Ray L. Birdwhistell constatam que 65% do significado de nossas conversas estão ligados a canais de comunicação não-verbal, restando 35% de importância para as palavras pronunciadas. Isso mostra que, ao usarmos da fala, nosso interlocutor tende a memorizar mais as mensagens corporais que, instintivamente, transmitimos. O professor Albert Mehrabian confirma a idéia. Seu levantamento aponta que 7% dos significados estão na linguagem falada; 38% são paralinguísticos (entonação e inflexões da voz) e 55% são encontrados em expressões faciais e gestos corporais.

Faça o teste você mesmo, amigo leitor! Experimente, enquanto alguém lhe dirige a palavra, balançar afirmativamente a cabeça em intervalos curtos de tempo. Esse pequeno gesto corporal estimula, segundo pesquisas, que a pessoa com quem você interage fale até quatro vezes mais do que faria sem o gesto. Outra dica é espelhar, ou seja, imitar posturas corporais de indivíduos dos quais você deseja se aproximar. Apertar a mão com a mesma firmeza, olhar firme e centrado, sorrir mostrando os dentes e inclinar o corpo na direção de quem fala são indicativos de sinceridade e podem ajudar a abrir portas.

Esses sinais invisíveis, considerados por autores da área como os mais honestos (visto que dificilmente os controlamos de forma consciente), também podem colocar barreiras às relações interpessoais. Braços e/ou pernas cruzadas, objetos colocados à frente do corpo como bolsas e pastas, sobrancelhas franzidas e mãos apoiadas no queixo indicam resistência, desinteresse ou mesmo apatia sobre o que está sendo dito ou exposto.

A posição e o uso que se faz do mobiliário e seus adereços também contribui para criar empatia ou antipatia. Cito um exemplo corriqueiro, mas não desimportante, que ocorreu comigo dia desses. Indo a um otorrinolaringologista, reparei que o bebedouro com água mineral teoricamente destinado aos pacientes que aguardam ser atendidos se localizava atrás da mesa da secretária. Nele estava escrito: “se quiser água, solicite à secretária”. Pensei: aqui até a água é racionada? Ao entrar no consultório, reparei que uma distância de 5 metros separava a cadeira do paciente da do médico. Ao tentar chegar a cadeira mais próxima, qual foi minha surpresa ao verificar que ela estava literalmente pregada ao chão. Das duas uma: ou algum paciente tentou raptar a cadeira ou a intenção do ‘médico’ era manter distância ‘razoável’ dos pacientes. Não foi preciso que ele dissesse nada; a frieza nos gestos e a aspereza do ambiente já indicavam a personalidade do ‘profissional’.